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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Negros

Negros
Adriana Calcanhotto
Composição: Adriana Calcanhotto

O sol desbota as cores
O sol dá cor aos negros
O sol bate nos cheiros
O sol faz se deslocarem as sombras
A chuva cai sobre os telhados
Sobre as telhas
E dá sentido as goteiras
A chuva faz viverem as poças
E os negros recolhem as roupas
A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
Os brancos são só brancos
Os negros são retintos
Os brancos têm culpa e castigo
E os negros têm os santos
Os negros na cozinha
Os brancos na sala
A valsa na camarinha
A salsa na senzala
A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
Os brancos são só brancos
Os negros são azuis
Os brancos ficam vermelhos
E os negros não
Os negros ficam brancos de medo
Os negros são só negros
Os brancos são troianos
Os negros não são gregos
Os negros não são brancos
Os olhos dos negros são negros
Os olhos dos brancos podem ser negros
Os olhos, os zíperes, os pêlos
Os brancos, os negros e o desejo
A música dos brancos é negra
A pele dos negros é negra
Os dentes dos negros são brancos
A música dos brancos
A música dos pretos
A música da fala
A dança das ancas
O andar das mulatas
"O essa dona caminhando"
A música dos brancos é negra
Os dentes dos negros são brancos
A pele dos negros é negra
Lanço o meu olhar sobre o Brasil e não entendo nada

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

PENSANDO SOBRE A PLURALIDADE CULTURAL

É importante refletirmos sobre a pluralidade cultural. A variedade de culturas existentes entre os povos humanos é espantosa. É tão rica e marcante no homem que muitos nos definem como seres culturais, produtores de cultura. Cultura é tudo aquilo que nós produzimos enquanto humanos: costumes, tradições, religiões, utensílios etc... Toda cultura possui suas regras sociais e seus valores. Geralmente as regras são criadas para defender aquilo que é valorizado por determinada cultura. Valor é tudo aquilo que é importante e valorizado para algum povo ou cultura. Em nossa cultura a igualdade é um valor dos mais importantes. Todos somos iguais perante a lei, mas nem sempre essa igualdade é real, nem sempre ela sai do papel. A desigualdade social presente no mundo reflete a ambigüidade humana. Valorizamos a igualdade de direitos e deveres, mas aceitamos uma sociedade dividida em classes, desigual e injusta. As pessoas são diferentes, mas isso não justifica que uns tenham acesso a tudo de bom enquanto outros passam necessidades, não tendo sequer condições para sobreviver dignamente. A convivência social deve se dar num ambiente de respeito às diferenças e que busque garantir pelo menos o básico, senão o melhor, para todos. O ser humano só será plenamente humano quando aprender a conviver com a diversidade e encarar o outro não como um inimigo, concorrente, mas como um parceiro na construção de um mundo melhor e mais digno de se viver. A diferença enriquece, enobrece, e a intolerância empobrece e emburrece o homem. Não existe cultura superior ou inferior, existem culturas diferentes, que juntas enriquecem a experiência de ser humano.

O HOMEM É A MEDIDA DE TODAS AS COISAS

O homem é um ser que dá sentido ao mundo à sua volta, e por isso, mede todas as coisas segundo sua própria maneira de ver. A frase do título é atribuída a Protágoras, filósofo sofista grego, acusado de ser um relativista por defender essa posição. Mas o que ele queria dizer é que o homem é responsável por aquilo que cria e inventa. Não podemos dizer que aquilo que damos sentido é natural ou promulgado por Deus. O sentido está em quem dá sentido às coisas. O homem é um ser que pensa, deseja e se comunica de forma muito mais sofisticada do que qualquer outro animal ou ser conhecido. Com o advento dos computadores e o progresso científico o homem passou a ser considerado uma máquina que pensa. Os seres vivos são máquinas extremamente sofisticadas que o homem vive tentando imitar em seus ensaios e pesquisas científicas. Mas o cérebro humano supera em tudo os outros seres da natureza, pois consegue ser de uma complexidade ainda maior. O homem é chamado de animal racional por ser o único que consegue se manifestar e expressar de forma tão variada e rica. O pensamento, qualidade por excelência humana, é ainda um grande mistério para a ciência. Somos coisas pensantes, que pensam o seu próprio pensar. Somos medida de todas as coisas porque medimos todas as coisas segundo nossa próprias medidas.

PENSANDO SOBRE O PENSAR

O que é pensar? O que é o pensamento? O pensar e o pensamento são atividades cerebrais humanas que envolvem o aspecto físico e psíquico. O ser humano além de pensar, coisa que o distingue de todos os outros animais, pensa sobre seu próprio pensamento, busca definir a própria definição. Nós não nos contentamos com nossos pensamentos, mas queremos saber até porque pensamos. Somos intrinsecamente insatisfeitos. Nada nem ninguém consegue preencher nossos vazios, nossa incompletude. Daí a dificuldade para nos realizarmos. A filosofia tenta ser um alento para o desespero humano proveniente da falta de sentido encontrada pelo homem ao analisar sua própria existência. A filosofia é um pensar sobre o pensar. Segundo Aristóteles a filosofia é pensamento de pensamento. Vivemos pensando, sobre coisas conhecidas, desconhecidas, sonhamos, mas o mais importante é pensar por si mesmo. Esse é o início da liberdade, ser capaz de pensar livremente, de não ir pela cabeça dos outros, mas formar o próprio conhecimento e a própria opinião. Conhecer a si mesmo é outra coisa que a filosofia nos ensina. Saber seus limites e suas capacidades, além de procurar a sabedoria que habita dentro de nós, como dizia Sócrates. É bom lembrar também que a filosofia é um pensamento aberto, dinâmico, feito por pensadores e que ensina a ser crítico e questionador. Pensar sobre o pensar é libertar-se de preconceitos que diminuem o humano, é ser contra a exclusão, a dominação, exploração e buscar justiça, igualdade e dignidade para todos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Quem será o filósofo?

Filósofo é um amigo do saber, amante do conhecimento. Nada lhe é inútil ou indigno de ser conhecido. Todo filósofo é uma criança, não no sentido da pureza ou da ingenuidade, até porque os filósofos não são nada puros ou ingênuos, pelo contrário, são indivíduos que questionam a pureza e buscam fugir da ingenuidade, mas que conservam o espírito curioso da criança, que tudo quer conhecer, de tudo quer saber o porquê. A curiosidade, a dúvida em relação às coisas e ao mundo é então o que ambos têm em comum, filósofos e crianças. Alguns sentimentos são companheiros fiéis de todo filósofo: admiração, espanto, dúvida, angústia, alegria, tristeza, solidão. O filósofo admira-se diante do mundo, se espanta com as coisas à sua volta, duvida de suas certezas, se angústia com sua própria existência, se alegra com a tristeza, fica triste com a alegria, é um ser contraditório, solitário, pois muitas vezes é incompreendido. Não é um sábio, nem dono do saber, mas é alguém extremamente preocupado com o conhecimento e a verdade sobre as coisas, mas não aceita as respostas facilmente, busca sempre a razão ou as razões de tudo. Já o sábio é aquele que acredita saber tudo, ter todas as respostas, e por isso quer ditar os rumos da história, das pessoas. O filósofo discorda do sábio e de seu pretenso saber, geralmente baseado na religião ou nas revelações religiosas.

Quem será o filósofo?

Quem faz história é historiador, quem faz geografia é geógrafo, quem faz teologia é teólogo, quem faz filosofia é... Se enganou quem pensou que a lógica seria a mesma para a filosofia. Como disciplina questionadora, até quando o assunto é quem será o filósofo, temos dúvidas e questões a pensar e responder. Para os filósofos, que fazem filosofia, só pode ser considerado filósofo aquele que é reconhecido como tal pela sociedade ou comunidade filosófica. Então isso quer dizer que aquele que forma ou faz faculdade de filosofia não se tornará exatamente um filósofo, mas um professor ou pesquisador de filosofia. Só será reconhecido ou admitido entre o seleto clube de filósofos aquele que criar uma teoria ou um conceito original, diferente de todos os que o antecederam ou precederam. Ser filósofo então não é algo tão simples, mas coisa pra poucos. Isso se tomarmos como referência a filosofia tradicional, européia, dominadora, excludente. Essa filosofia é uma filosofia de elite, pra elite e com a elite. Não liberta o homem, mas o domina, o coloca sob o jugo do pensamento europeu e suas teorias da dominação. Inclusive tal elite ainda não reconhece o pensamento e filosofia produzida na periferia do mundo. A tem como ingênua produção de idéias primitivas. Mas um novo movimento filosófico gestado na periferia do mundo está tentando democratizar a filosofia e torná-la acessível para as pessoas comuns. Esse movimento é denominado filosofia da libertação, que visa libertar-nos da dominação filosófica euro-norte-americana e produzir um pensamento, teorias e conceitos próprios da periferia e dos povos marginalizados. O filósofo segundo a tradição elitista é um ser anacrônico, solitário, prolixo. Mas o novo modelo que se quer propor é mais acessível, dedicado às questões do nosso tempo, aos nossos problemas, com forte sentido de comunidade, que visa falar a língua e a linguagem do povo, popular, para tratar das questões da população, preferencialmente os excluídos e marginalizados, condenados à pobreza, à miséria, à falta de moradia, educação e saúde. Este novo ideal de filósofo é o que se faz urgente para a nossa realidade. Ele busca o reconhecimento de sua alteridade para debater e decidir os rumos do planeta, pois é também dele habitante.

Filosofia, o que é isso afinal?

Filosofia é amor à sabedoria, amizade pelo conhecimento. Filosofia é fazer perguntas, filosofar é questionar, não aceitar as coisas como são ou como estão, mas inquiri-las para descobrir suas razões. A filosofia nasceu do espanto, da admiração diante do desconhecido. O filósofo se admira com as coisas, mesmo aquelas comuns, profanadas pelo dia-a-dia. Ser filósofo é espantar-se com o mundo a sua volta, não deixar nada passar batido, não tomar nada como já conhecido ou sem inspiração para se conhecer. Tudo vale a pena ser pesquisado, estudado, conhecido, e nada é tal como vemos, sentimos e escutamos, é sempre mais, muito mais. Você e a filosofia possuem muitas coisas em comum, mas infelizmente vivemos num mundo que amortece e adormece nosso espírito filosófico. A curiosidade, sentimento comum a todos nós seres humanos, vai aos poucos sendo escamoteada, deixada de lado, em troca de certezas incertas, verdades mentirosas e realidades irreais. A criança vive perguntando o porque de tudo, mas sempre ouve dos adultos que tudo é assim porque tem que ser assim e sempre será assim. Isso não é verdade! O mundo não tem que ser assim e nem será sempre assim. Aprendemos isso com a filosofia, que desmonta os mitos antigos e modernos, que escondem do homem seu espírito inquisidor. Quem é você? Pergunta tão simples, que as vezes parece óbvia, mas a obviedade é criação dos sem criatividade que preferem viver num mundo de coisas certas e claras. Mas responder a essa questão não nos dará certeza nem clareza sobre quem somos, ou quem eu sou, ou que é o outro. Há muito de nós, do mundo, do outro que desconhecemos e isso dificulta demais uma resposta cabal ou satisfatória para essa questão. Quem sou eu? Por que eu existo? Para que eu existo? Quem é você, que lê este texto? O que é este blog? Qual a finalidade de tudo isto? Responda se puder!!!